A metodologia do SINE – Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues

A metodologia do SINE

As visitas missionárias

Saída Missionária a todo o território, dividido em setores, para buscar as ovelhas perdidas e afastadas, através de missões evangelizadoras intensivas e visita missionária permanente, em cada setor, de casa em casa.

Os retiros querigmáticos (de evangelização) como fruto das visitas e das missões acontecem os retiros querigmáticos preparados nas Casas de Preparação através de uma informação clara e de motivação profunda.

A base de lançamento desse trabalho é o testemunho de vida das pessoas e da comunidade. Aí se revela a força do querigma.

Os retiros querigmáticos são o grande segredo do processo de evangelização. Isto porque não é possível uma experiência do querigma se a pessoa não está em atitude de busca sincera do encontro com a salvação. Esta atitude despertada, na visita missionária e reforçada na Casa de Preparação, é condição do sucesso do retiro.

Em um mundo em que as pessoas estão sempre correndo na luta pela sobrevivência, quando não em busca de valores efémeros, é necessária essa parada para pensar no sentido da vida e trazer à tona a mais profunda aspiração do próprio coração. Também nós, presbíteros, precisamos desses momentos. Cada retiro deveria ser para nós a renovação do encontro com Cristo, deveria ser marcado pelo querigma. Mas, para muitos cristãos, de um cristianismo cultural ou simplesmente moralizante, – pastorais sem o querigma se tornam peso e obrigação -, esta experiência é fundamental, e há de se tornar o início de uma vida de verdadeiro discípulo. Aqui deve se dar aquele encontro que levou os primeiros discípulos a dizerem: “encontramos o Messias” (Jo 1,41) e a se decidirem pelo seguimento de Jesus até o final de suas vidas. Mesmo aqueles cristãos que começaram seu encontro com Cristo no empenho de lutar pela justiça ou de ir ao encontro dos pobres, necessitam dessa experiência espiritual que há de trazer um novo vigor e uma motivação ainda mais forte para sua atuação no mundo.

Nossas paróquias estão cheias de pastorais e não há gente suficiente para tantas necessidades. Algumas atividades se destinam também ao anúncio. Isto acontece, porém, de forma imperfeita, porque nem sempre as pessoas estão preparadas para receberem o anúncio. Participam, até gostam, mas não se convertem. Não é o que acontece com as preparações para os sacramentos do batismo e do matrimônio, por exemplo?

Sem o querigma as pessoas não se sentem motivadas nem para a missa dominical, quanto mais para as pastorais. Muitos dão o dízimo e se contentam com essa doação. Sentem-se em paz com sua consciência. O querigma propriamente tem sido oferecido pelos movimentos, embora nem sempre de forma ordenada e com a devida continuidade através de uma catequese de adultos querigmática e permanente. A proposta do SINE é que a paróquia assuma como sua primeira tarefa propor o querigma a todos.

Todos devem ter oportunidade de receber o querigma através do testemunho da comunidade, das visitas missionárias e das missões intensivas através das quais se espera que um número crescente de pessoas se disponha a fazer o retiro de experiência do querigma. O início da conversão pastoral da paróquia é começar a trabalhar nessa direção.

O que é o querigma, qual seu conteúdo e como proclamá-lo e fazê-lo chegar a todos?

Para modelar as comunidades

A Iniciação Cristã

“Sentimos a urgência de desenvolver em nossas comunidades um processo de iniciação na vida cristã que comece pelo querigma e que, guiado pela Palavra de Deus, conduza a um encontro pessoal, cada vez maior, com Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem, experimentado como plenitude da humanidade e que leve à conversão, ao seguimento em uma comunidade eclesial e a um amadurecimento de fé na prática dos sacramentos, do serviço e da missão” (389).

O anúncio, a experiência do querigma, o encontro com o Senhor, fazem nascer o discípulo. Este deve agora crescer no seguimento e se tornar também missionário. Entretanto não se é discípulo sozinho. Cresce-se em comunidade.

A comunidade dos discípulos se desenvolve pela escuta da Palavra. O Doc. de Aparecida fala, então, da iniciação à vida cristã e da catequese permanente (286 a 300). A iniciação sustenta os primeiros passos daquele que foi tocado pela presença do Senhor, pelo querigma, na linha do catecumenato da Igreja dos primeiros tempos: “a iniciação cristã, propriamente falando, refere-se à primeira iniciação nos mistérios da fé, seja na forma do catecumenato batismal para os não batizados, seja na forma de catecumenato pós-batismal para os batizados não suficientemente catequizados. Esse catecumenato está intimamente unido aos sacramentos da iniciação: batismo, confirmação e eucaristia, celebrados solenemente na Vigília Pascal” (288). “A formação do cristão “teve sempre caráter de experiência, na qual era determinante o encontro vivo e persuasivo com Cristo, anunciado por autênticas testemunhas”. “Trata-se de uma experiência que introduz o cristão numa profunda e feliz celebração dos sacramentos, com toda a riqueza de seus sinais. Desse modo, a vida vem se transformando progressivamente pelos santos mistérios que se celebram, capacitando o cristão a transformar o mundo. Isso é o que se chama ‘catequese mistagógica”‘ (290).

“É necessário assumir a dinâmica catequética da iniciação cristã. Uma comunidade que assume a iniciação à vida cristã renova sua vida comunitária e desperta seu caráter missionário. Isso requer novas atitudes pastorais por parte dos bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e agentes de pastoral” (291).

“Espera-se da iniciação cristã que leve o discípulo a ter Cristo como centro de sua vida, a ter espírito e prática de oração, ser amante da Palavra, assíduo à confissão frequente e participe sempre da eucaristia, inserido na comunidade eclesial e social, solidário no amor e seja fervoroso missionário” (292). Aqui se encontram indissoluvelmente unidas catequese e liturgia.

 A Metodologia do SINE propõe

Um tempo de 12 semanas, após o retiro querigmático. Assim: “havendo terminado o retiro de evangelização, nos três meses seguintes, em reunião semanal, serão apresentados e explicados os diferentes meios de perseverança e de crescimento: leitura e estudo da bíblia, como realizar e cumprir a catequese, vida e atos de oração pessoal e comunitária, e o que significa o carregar cada dia a cruz no seguimento de Jesus; a importância da comunidade e da vinculação à paróquia, a centralidade dos sacramentos, especialmente a Eucaristia” (Pe. Alfonso Navarro em Pastoral de Seguimento). Terminado esse tempo devem estar formadas as comunidades. Nas comunidades se dará a catequese permanente.

O modelo é o descrito em Atos 2,42 onde se delineiam os elementos essenciais da vida eclesial: o aprendizado vivo da doutrina dos Apóstolos, a comunhão fraterna, a oração comum, a Eucaristia, a solidariedade e a partilha. Essas comunidades serão missionárias, cada membro assumirá com outros a missão nas visitas permanentes e no planejamento das missões intensivas bem como, progressivamente, outras funções. A paróquia será, então, uma rede de comunidades a partir dos setores.

A Catequese permanente se dará sobretudo na pequena comunidade nas reuniões semanais como se pode ver pelo estudo da metodologia do SINE.

Sobre a catequese permanente o documento de Aparecida tem algumas observações importantes. Coloco duas: “os materiais e subsídios são com frequência muito variados e não se integram em uma pastoral de conjunto; e nem sempre são portadores de métodos pedagógicos atualizados… Os párocos e demais responsáveis não assumem com maior empenho a função que lhes corresponde como primeiros catequistas” (296); “A catequese não deve ser só ocasional, reduzida a momentos prévios aos sacramentos ou à iniciação cristã, mas sim itinerário catequético permanente. Por isso compete a cada Igreja Particular, com ajuda das Conferências Episcopais, estabelecer um processo catequético orgânico e progressivo que se estenda por toda a vida, desde a infância até à terceira idade, levando em consideração que o diretório Geral de Catequese considera a catequese com adultos como a forma fundamental da educação na fé” (298).

É muito interessante a proposta do SINE que faz das pequenas comunidades nos setores o lugar dessa catequese viva que sempre de novo retoma o querigma em contexto de oração, de partilha fraterna e de solidariedade, para transformar a sociedade e a cultura “mediante o testemunho dos valores evangélicos” (NMI 29).

Uma Igreja, casa e escola de comunhão só pode acontecer a partir de comunidades menores onde, de fato, seja possível uma intensa vida de oração, uma verdadeira catequese, uma autêntica partilha em torno dos avanços e das dificuldades de fazer o caminho bem como uma permanente avaliação do esforço missionário de anúncio e presença na sociedade. Daí a advertência do documento de Aparecida: “A conversão dos pastores – bispos, padres e diáconos – leva-nos também a viver e ‘promover uma espiritualidade de comunhão e participação propondo-a como princípio educativo em todos os lugares onde se forma o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, as pessoas consagradas e os agentes de pastorais, onde se constroem as famílias e as comunidades’ (NMI).

“A conversão pastoral requer que as comunidades eclesiais sejam comunidades de discípulos missionários ao redor de Jesus Cristo, Mestre e Pastor. Daí nasce a atitude de abertura, de diálogo e disponibilidade para promover a corresponsabilidade e participação efetiva de todos os fiéis na vida das comunidades cristãs. Hoje, mais do que nunca, o testemunho de comunhão eclesial e de santidade são uma urgência pastoral. A programação pastoral há de se inspirar no mandamento novo do amor” (cf. Jo 13,35; DA 368).

A metodologia do SINE tem na formação de pequenas comunidades um de seus fundamentos. Fazer da paróquia uma comunidade de comunidades deve ser o fruto do querigma acompanhado da catequese. Esta já acontece em comunidade e é, juntamente com a celebração da liturgia, a força de sua consolidação. “A Paróquia é o corpo eclesial local, as pequenas comunidades são como as células desse corpo. A pertença estável e a participação comprometida são em última análise, a paróquia; porém, em e através das pequenas comunidades e com articulação dos setores geográficos”. A proposta do SINE trabalha longamente como fazer essas comunidades, como devem elas viver e quais os conteúdos catequéticos indispensáveis para sua consolidação.

Deverão com seu amadurecimento fortalecer a comunhão eclesial e o espírito e a ação missionária bem como formar os cidadãos para um mundo novo, inclusive com desenvolvimento de uma participação política eficaz, segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja para transformar a sociedade e impregnar a cultura com os valores do evangelho é preciso que a Igreja na sua vida concreta seja casa e escola de comunhão. O Santo Padre, João Paulo II, afirmara: “fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milênio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo” (NMI, 43).

Na vivência eclesial os cristãos aprenderão também como ser cidadãos, construtores da sociedade e forjadores de uma cultura onde imperem os valores da comunhão e da participação. Formar discípulos missionários é também formar cidadãos autênticos que haverão de entender seu trabalho no mundo como participação na construção do reino de Deus.

Por tudo isso que o Espírito está a sugerir-nos, através do documento de Aparecida, insisto que todos os sacerdotes, seminaristas e diáconos estudem a metodologia do SINE, pois ela se constitui em uma forma concreta, já testada na prática, de renovar as estruturas da Igreja a partir da paróquia. Em nossa

A implantação da metodologia do SINE deve se fazer sem descurar ou abandonar a prática atual. Na medida em que se implantar esse processo e na medida em que ele se consolidar, tudo o que há de bom na prática pastoral da paróquia vai sendo assimilado sem nada perder de seu valor e eficácia.

 

Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues

Arcebispo Emérito da Arquidiocese de Sorocaba

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